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PSEUDOPOTÊNCIA
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Luiz Eduardo Rocha Paiva
“Entre outros males, estar desarmado significa ser desprezível”
(“o Príncipe” – Maquiavel)
O desfecho da iniciativa diplomática brasileira no Oriente Médio
demonstrou os limites do poder de um país cuja ação na cena
internacional só é relevante nos temas da área econômica. Essa
limitação revela uma fraqueza que será ainda mais evidente quando
entrarem em choque interesses nacionais e os dos países que
efetivamente conduzem os destinos do mundo, em função da projeção
desses últimos, seja em nosso entorno estratégico, seja
diretamente sobre o nosso patrimônio.
Somos uma potência com pés de barro, cuja expressão
mundial depende principalmente da exportação de commodities com
baixo valor agregado, da prestação de serviços por
algumas empresas e instituições e do atrativo mercado interno.
Relevância econômica, mas não militar. Há um desequilíbrio
interno fruto da indigência bélica; da debilidade nas áreas de
educação, indústrias de valor estratégico, ciência, tecnologia
e inovação; da crise de valores morais; e da falta de civismo.
Desse quadro, emergem graves vulnerabilidades para enfrentar os
conflitos que se avizinham.
O mundo ficou pequeno e a América do Sul (AS) é um dos principais
palcos de projeção da China, a ser seguida da Índia e da Rússia.
O Brasil terá sua liderança regional ameaçada não só por esses
novos competidores, pois os EUA intensificarão a presença na AS, a
fim de não perder espaços estratégicos para poderosos rivais
arrivistas. A China passa a ser diretamente interessada na exploração
dos recursos da AS – agrícolas, minerais, hídricos, e outros –
incluindo, logicamente, os da Amazônia. Será menos arriscado
China, Rússia e Índia unirem-se aos EUA e UE para impor limites à
soberania na Amazônia e em outras regiões, visando condições
vantajosas no aproveitamento de seus recursos, do que entrarem em
conflito entre si. Atrás da projeção político-econômica virá a
militar, inicialmente pela cooperação, evoluindo para dissuasão
e, possivelmente, para o emprego direto quando os interesses se
tornarem importantes ou vitais. O Brasil e os vizinhos são os
atores mais fracos e é desse lado que a corda arrebenta. A
história é uma sábia mestra e a da China no século XIX, fatiada
em sua soberania e patrimônio e vilipendiada pelas potências da época,
mostra o que pode acontecer aqui, pois a China era, então, a nova
fronteira como hoje é a AS. Os “impérios” de ontem são as
mesmas potências de hoje, com algumas novas presenças como a da Índia.
A perda do Acre pela Bolívia em 1903 é um alerta ao Brasil por sua
política irresponsável na Amazônia, pois as semelhanças entre o
evento do passado e o presente amazônico são preocupantes,
particularmente no tocante às terras indígenas (TI). A Bolívia no
Acre, por dificuldade, e o Brasil na Amazônia, por omissão,
exemplificam vazios de poder pela fraca presença do Estado e de
população nacional em regiões ricas e cobiçadas. O Acre, vazio
de bolivianos, era povoado por seringalistas e seringueiros
brasileiros, respectivamente líderes e liderados, sem nenhuma ligação
afetiva com a Bolívia. No Brasil, ONGs internacionais lideram os
indígenas e procuram conscientizá-los de serem povos e nações não
brasileiras, no que contam com o apoio da comunidade mundial.
Portanto, enquanto no século XIX uma crescente população
brasileira estava segregada na Bolívia, hoje o mesmo acontece com a
crescente população indígena do Brasil, ambas sob lideranças sem
nenhum compromisso com os países hospedeiros e sim com atores
externos. Ao delegarem autoridade e responsabilidades a ONGs ligadas
a nações e atores alienígenas, os governos brasileiros
autolimitaram sua soberania como fez a Bolívia ao arrendar o Acre
ao Bolivian Syndicate. Décadas de erros estratégicos enfraqueceram
a soberania boliviana no Acre, direito não consumado, pois aqueles
brasileiros revoltaram-se e o separaram da Bolívia, que aceitou
vendê-lo ao Brasil.
A Amazônia brasileira nos pertence por direito, mas só a ocupação
e integração farão a posse efetiva. Em poucas décadas, haverá
grandes populações indígenas desnacionalizadas e segregadas,
ocupando imensas terras e dispostas a requerer autonomia com base na
Declaração de Direitos dos Povos Indígenas, aprovada na
ONU com apoio do Brasil. Se não atendidas, evocarão a Resolução
que instituiu, em 2005, a Responsabilidade de Proteger, nome
novo do antigo Dever de Ingerência. Hoje, há uma forte
pressão para transformar TIs em territórios administrados por índios,
inclusive com polícia indígena, iniciativa que reúne
atores externos e internos, estes uma quinta coluna
cuja atuação atende a objetivos alienígenas. Um sem-número de
TIs, com maior autonomia que os estados da Federação, comprometerão
a governabilidade e a integridade territorial num país que, muitos
não percebem, ainda está em formação, pois não foi totalmente
integrado.
Não é que a história se repita, mas situações semelhantes em
momentos distintos costumam ter desfechos parecidos, para o bem ou
para o mal, se as decisões estratégicas adotadas forem similares.
Do militar e do diplomata espera-se percepção estratégica capaz
de identificar possíveis ameaças, embora longínquas no tempo,
antes que se tornem prováveis, pois aí será tarde demais. Cabe a
eles, também, a coragem de assessorar o Estado com franqueza,
defendendo o interesse nacional mesmo com o risco de afrontar políticas
imediatistas de governos de ocasião, que comprometam interesses
vitais da Nação. Política exterior é diplomacia e defesa, e
nenhuma das duas se improvisa.
No início dos anos 1990, quem alertou para a ameaça à soberania,
quando a criação da reserva ianomâmi iniciou o processo de balcanização
da Amazônia, foi considerado um visionário. Governos sem visão
prospectiva e aptidão para avaliar riscos desprezaram a ameaça e
fizeram o jogo das grandes potências, aceitando imposições que vêm
criando paulatinamente, por meio de uma exitosa estratégia de ações
sucessivas, as condições objetivas para a perda de soberania. Por
importantes que sejam outras ameaças internacionais, esta é a mais
grave. O resultado será desonroso para o país se sua liderança
continuar adotando decisões utópico-internacionalistas-entreguistas,
calcadas num discurso politicamente correto, mas moralmente
covarde, pois não confessa que se troca soberania por interesses
imediatistas ou ideológicos apátridas, camuflados sob bandeiras
como a defesa dos direitos de minorias e a preservação do meio
ambiente.
Assim,
não se trata apenas de fraqueza militar, mas também da ausência
de lideranças competentes e de estadistas que tracem políticas e
estratégias capazes de limitar ou neutralizar vulnerabilidades. Ao
contrário, vêm tomando decisões desastrosas, cujo resultado será
a contestação e limitação de nossa soberania na Amazônia, pela
via indireta, que dispensará ou reduzirá significativamente a
necessidade de emprego do poder militar. Eis o resultado de não
ocupar, não povoar, não desenvolver, não defender e não
preservar a Amazônia, bem como de segregar ao invés de integrar o
indígena aos seus irmãos brasileiros.
É lamentável a sociedade esclarecida, seus representantes e
lideranças, em setores decisórios do Estado e em muitas de suas
instituições, aceitarem passivamente ou reagirem timidamente à
mutilação do país, avalizada por sucessivos governos. Convém
ressaltar que esse cenário foi construído, desde o início dos
anos 1990, a partir da ascensão ao poder da esquerda, cujos
discursos demagógicos e ilusórios de defesa dos bens materiais da
Nação, do meio ambiente e dos direitos humanos, de revisão da
história e de mudança de valores escondem o propósito real de
viabilizar a estratégia gramcista de tomada do poder, pela
desagregação da sociedade nacional e o esfacelamento do Estado. É
uma esquerda pseudonacionalista – internacionalista de fato – e
pseudopatriota – populista de fato, que despreza a história, os
feitos, as tradições e os verdadeiros heróis nacionais. Não ama
a Nação, mas sim sua ideologia, e não tem uma Pátria, mas sim um
partido.
Para merecer e manter um patrimônio imensamente rico como o
brasileiro, onde se inclui a nossa Amazônia, é preciso não um
pseudonacionalismo de bravatas, demagógico e xenófobo, mas um
patriotismo real e sincero, respaldado numa vontade nacional firme,
altiva e corajosa para assumir os riscos dos conflitos que virão e,
ainda, lideranças legítimas, confiáveis e efetivamente
comprometidas com a Nação. Sem tais atributos, países, ainda que
sejam fortes e ricos, não passam de pseudopotências.
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O autor é General-de-Brigada, professor emérito e ex-comandante da
Escola de Comando e Estado-Maior do Exército; Membro da Academia de
História Militar Terrestre do Brasil.
Observação:
o texto acima chegou-me às mãos através do Cel. Gélio Fregapani
e é por mim repassado, por merecer a atenção de todos os
brasileiros.
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